Proponho-me aqui, nesta estreita vertente de idéias, o vislumbre da união teórica das relações existentes entre Foucault e Nelson Rodrigues com Gilberto Freyre. Da promiscuidade metafísica entre os micropoderes, as relações privadas e a miscigenação colonizadora. A casa-grande e a senzala. “Os pretos na cozinha, os brancos na sala. A valsa na camarinha e a salsa na senzala” (ADRIANA CALCANHOTO, Negros). As sobras coloniais para a feijoada tradicional, cheia de negativas e positividades dos poderes, e saberes, que enche o grande prato-Brasil dos antagonismos do indivíduo rodrigueano, O pleno de libido e disciplinado da moral sexual, o fardo da unidade contra-maniqueísta. São do restante ao contato com o luso, explícito por Freyre, que Rodrigues monta sua dramaturgia, pelos levantes da “identidade” brasileira, do Brasil que abrigou o português habilmente móbil, responsável por colonizar, amoralmente repleto do que Freud exprimiu como “energia de viver”, e da coroa estática portuguesa, com tempo de sobra para impingir moral e tabus sexuais. São dos exercícios do poderio luso, possíveis de serem extraídos do que fora exposto até este ponto, com os quais pretendo desenrolar esta meada, da casa-grande à senzala.
Pensando a obra de Gilberto Freyre, antes de expor o português colonizador entremeado na difusão da miscigenação brasileira, hão de serem contrastados dois tipos responsáveis. Utilizando-se da teórica marxista poderíamos figurar-los como o burguês e o operário, apenas numa mera aproximação, superficial, deste modelo, sem mergulhar no íntimo desta relação. I – O português coroado, “burguês”, o pensante e com o poderio de organização da missão colonizadora, sua rentabilidade e execução. II – O português atuante, “operário”, responsável pelo desbravamento e exploração, como das possibilidades de permanência sob o território.
É este segundo modelo de português o qual, primeiramente, recebemos em “nosso território”. Incluo-me neste grande grupo não na falsa pretensa de um povo único e idêntico, mas baseado na extensão das terras sob a qual variam os tipos de expressar uma mesma língua, sem falar da religião, que só contemporaneamente tem-se enfraquecido, mas o que não significa o mesmo na questão de identidade nacional, assim como já havia feito Freyre ao caracterizar estes espécimes como cimento para o Brasil colonial.
São estes portugueses, atuantes colonizadores, os responsáveis pelo sucesso do estabelecimento da vasta submissão brasileira diante da escassez numérica dos lusos. No princípio da colonização a coroa esteve ausente, de acordo com Freyre, neste território. Deste modo, os colonizadores estavam livres de um mando central, de um poder monopolizante capaz de moralizar os meios e modos do estabelecimento português. Foram dos delineamentos portugueses, tão adaptáveis a mobilidade e a multiplicidade cultural, ralamente apegados aos preceitos raciais, que tornou-se passível de permanência e proliferação o plano de exploração portuguesa.
Freyre, ainda que de modo não-conceitual, explícita jogos de poderio que só posteriormente Foucault viria a elaborar numa revolucionaria perspectiva do exercício de poder, essencial e mais identificável sob sua descrição da miscigenação, responsável fonte da permanência portuguesa como força colonizadora, mas, também, ao explicitar os insucessos anteriores das pretensões de colonizações européias.
Quando Freyre convoca ao tabuleiro dos jogos colonizadores outros povos que não os portugueses, mas os “perdedores”, assim como os brasileiros, germânicos e franceses, sutilmente possibilitou nova perspectiva sob a influência dominante, que não se bastava para o sucesso possuir milícia ou poder central bem definido. O Brasil colônia, apesar de não possuir um poder de referência monopolizante, capaz de garantir a proteção das riquezas do território próprio, não estava vulnerável do modo como poderiam pensar os Homens da tradicional intelectualidade. Freyre, como Foucault, exterioriza o poder como um exercício que não flui em uma única via, mas que se constrói em relações com o meio que os circunda, incluindo homens, espaço e tempo, resposta aos malogros das “in-sucessivas” explorações territoriais. Neste instante, Freyre já contrariara as possibilidades especulativas correntes de superioridade racial, que acompanhara contemporaneamente com a Segunda Guerra Mundial.
A este modo, mesmo que múltiplos, os dispositivos de permanência são específicos. Aos portugueses aqui chegados, Freyre prende dois modelos essenciais de agência para o seu triunfo. O primeiro referencia a mobilidade e fácil adaptação cultural, característica do modelo expansionista colonizador, marinheiros desbravadores, tecnicista, bem como a rala valorização racial, possibilitada desde sua formação por indecisão cultural e étnica entre a Europa e África. E, secundariamente, como ponto principal ao que aqui nos diz respeito, com relação ao povo brasileiro, está a miscigenação, variável dependente, no caso, dos adjetivos expostos anteriormente.
Quando referencio a miscigenação como fato secundário, mas de forma alguma menos importante, pretendo evidenciar o que Foucault exporia como causa próxima de sua possibilidade. É da disciplinarização corporal pouco preservativa racialmente que a casa-grande “trepa” com a senzala. Somente pela probabilidade sexual e a degenerescência da pura raça fora possível a vitória dos dispositivos colonizadores, sem deste modo formar uma estratégia consciente organizadora. Pelo contrário, esta era uma corporalidade nacional, visto o que afirmara anteriormente, o primeiro colonizador agira por força particular, distante de um modelo central-colonizador, sem, obviamente, distanciar-se dos intuitos da coroa.
Da necessidade de exploração territorial e expansão étnica, tanto de brasileiros quanto de portugueses, proliferaram os indivíduos da instituição, ou devo mesmo conceituar como instituiçõeS?, casa-grande e a senzala para formar a “progressista” civilização. Dos negros e senhores, dos índios e senhores, (se pudera) das cabras e senhores, de senhores e senhorinhas, senhorzinhos e senhoras, de senhores e senhoras, enfim, de um grande bacanal intra-casa-grande, intra-senzala, inter-casa-grande e senzala, do qual nos fala Freyre, para a constituição brasileira. São a resultante destes excessos sexuais os indivíduos que recebem a coroa portuguesa em território nacional, os semelhantes alienígenas prontos para recalcar nem somente os impulsos imoderados de sexualidade no Brasil, mas, também, qualquer coisa que poderíamos ter criado como “impulsos medianamente incontroláveis de sexualidade” (blefe total!). Não! nos culturalizaram de amor, a praga civilizatória cristã-ocidental, do sexo e dedicação monogâmica, na moral infringível que nos faz nós e outros e, comumente, quando a economia convém nos torna um “outro-nós” e outros. Os economicamente rentáveis ora ou outra são tornados um de Nós, assim como foram os negros, as mulheres e têm sido os gays e muitos outros, nas permutas construtivas, nem por isso deixando de serem degradantes, dos saberes entre verdades nossas e d’aqueles. “O amor é a maior energia criativa, mas até agora tem sido um azar, o maior azar. As pessoas não tem sido mortas por causa do ódio: as pessoas têm sido mortas por causa do amor. A vida ficou tão amarga, não por causa da raiva: ficou tão amarga por causa do amor.” (OSHO)
A casa-grande e a senzala estão tão próximas quanto o lar do banheiro externo. Não são eles diferentes e, sim, partes distintas do mesmo. O que parece central em Freyre é a figura do patriarca. É ao fim da extensão de seu domínio onde surgem as fronteiras. Os poderes são micro, ainda que haja uma figura chave nestas relações, o Falo determinante capaz de criar uma unidade privada, se não a própria, bastante próxima da concepção Família corrente. O mando é exercido por um poder central, capaz de oprimir da casa-grande à senzala, mas nem por isso esgota as possibilidades de figuração dos poderes. Por si só, a vasta miscigenação e promiscuidade não seria passível de mão-única aos poderes.
Ao que me parece, as criticas dirigidas a Freyre como autor de uma obra que acalanta as tensões entre senhores e escravos se baseia em modelos bem delineados que buscam simplificar um período situacional resumidamente. O que Freyre desenvolve é uma perspectiva do processo cotidiano no espaço privado do Brasil colônia, muito mais sutis que qualquer modelo de poder, a submissão e o domínio criam as relações entre brancos e negros, brancos e brancos, num caminho fluido entre todos.
É sob este mesmo ambiente freyreano, de tensões (extra)ordinárias do convívio intra-familiar, das situações de autoridade e servilismo, dos problemas e das resoluções em ambiente privado, que Nelson Rodrigues desenvolve sua dramaturgia. Leitor e admirador da obra de Freyre, Rodrigues personifica a promiscuidade colonial entre casa-grande e senzala através do núcleo familiar brasileiro das classes médias. A proximidade dos portugueses aos negros e indígenas, para Freyre, devem-se as relações sexuais e do mesmo modo, também, parecem construírem-se os laços rodrigueanos.
O ambiente é familiar, os personagens vivem sob angústia de relações sexuais, do desejo excessivo. Seus universos são perturbados pela pulsante sexual dentro de si, variando entre as exposições dos desejos mais recusados socialmente, como o incesto, até a repressão extrema da sexualidade como um grande fardo, um carma, o qual há de pesar e entristecer o resto dos dias.
“A tragicidade dos textos de Nelson Rodrigues – sendo sempre levada ao limite da aceitação, da moral, do pudor –, constituiu-se a partir de um ambiente familiar dominado por constante impulso sexual, por desejos incontrolados, mas em permanente tensão com um ideal de castidade, de frieza, de controle dos impulsos. Há aí uma apropriação de idéias e interpretações de Gilberto Freyre. Indo além, é possível afirmar que, dentro dessa primeira tensão, uma série de outras questões são apropriadas por Nelson Rodrigues: a expressão de uma determinada cultura política em que os padrões de comportamento dos personagens se pautam pelas relações pessoais em detrimento de acordos coletivos e institucionais, a constante presença da violência como forma de regulação da vida social, o lugar da família como central e também regulador da vida social, a presença de uma série de excessos, seja de violência, de pudor, de paixão, de autoridade, todos necessários à constituição das situações trágicas propostas por Nelson.” (HENRIQUE BUARQUE DE GUSMÃO)