quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Saber: Miscigenação (Foucault, Nelson Rodrigues e Gilberto Freyre)

Proponho-me aqui, nesta estreita vertente de idéias, o vislumbre da união teórica das relações existentes entre Foucault e Nelson Rodrigues com Gilberto Freyre. Da promiscuidade metafísica entre os micropoderes, as relações privadas e a miscigenação colonizadora. A casa-grande e a senzala. “Os pretos na cozinha, os brancos na sala. A valsa na camarinha e a salsa na senzala” (ADRIANA CALCANHOTO, Negros). As sobras coloniais para a feijoada tradicional, cheia de negativas e positividades dos poderes, e saberes, que enche o grande prato-Brasil dos antagonismos do indivíduo rodrigueano, O pleno de libido e disciplinado da moral sexual, o fardo da unidade contra-maniqueísta. São do restante ao contato com o luso, explícito por Freyre, que Rodrigues monta sua dramaturgia, pelos levantes da “identidade” brasileira, do Brasil que abrigou o português habilmente móbil, responsável por colonizar, amoralmente repleto do que Freud exprimiu como “energia de viver”, e da coroa estática portuguesa, com tempo de sobra para impingir moral e tabus sexuais. São dos exercícios do poderio luso, possíveis de serem extraídos do que fora exposto até este ponto, com os quais pretendo desenrolar esta meada, da casa-grande à senzala.
Pensando a obra de Gilberto Freyre, antes de expor o português colonizador entremeado na difusão da miscigenação brasileira, hão de serem contrastados dois tipos responsáveis. Utilizando-se da teórica marxista poderíamos figurar-los como o burguês e o operário, apenas numa mera aproximação, superficial, deste modelo, sem mergulhar no íntimo desta relação. I – O português coroado, “burguês”, o pensante e com o poderio de organização da missão colonizadora, sua rentabilidade e execução. II – O português atuante, “operário”, responsável pelo desbravamento e exploração, como das possibilidades de permanência sob o território.
É este segundo modelo de português o qual, primeiramente, recebemos em “nosso território”. Incluo-me neste grande grupo não na falsa pretensa de um povo único e idêntico, mas baseado na extensão das terras sob a qual variam os tipos de expressar uma mesma língua, sem falar da religião, que só contemporaneamente tem-se enfraquecido, mas o que não significa o mesmo na questão de identidade nacional, assim como já havia feito Freyre ao caracterizar estes espécimes como cimento para o Brasil colonial.
São estes portugueses, atuantes colonizadores, os responsáveis pelo sucesso do estabelecimento da vasta submissão brasileira diante da escassez numérica dos lusos. No princípio da colonização a coroa esteve ausente, de acordo com Freyre, neste território. Deste modo, os colonizadores estavam livres de um mando central, de um poder monopolizante capaz de moralizar os meios e modos do estabelecimento português. Foram dos delineamentos portugueses, tão adaptáveis a mobilidade e a multiplicidade cultural, ralamente apegados aos preceitos raciais, que tornou-se passível de permanência e proliferação o plano de exploração portuguesa.
Freyre, ainda que de modo não-conceitual, explícita jogos de poderio que só posteriormente Foucault viria a elaborar numa revolucionaria perspectiva do exercício de poder, essencial e mais identificável sob sua descrição da miscigenação, responsável fonte da permanência portuguesa como força colonizadora, mas, também, ao explicitar os insucessos anteriores das pretensões de colonizações européias.
Quando Freyre convoca ao tabuleiro dos jogos colonizadores outros povos que não os portugueses, mas os “perdedores”, assim como os brasileiros, germânicos e franceses, sutilmente possibilitou nova perspectiva sob a influência dominante, que não se bastava para o sucesso possuir milícia ou poder central bem definido. O Brasil colônia, apesar de não possuir um poder de referência monopolizante, capaz de garantir a proteção das riquezas do território próprio, não estava vulnerável do modo como poderiam pensar os Homens da tradicional intelectualidade. Freyre, como Foucault, exterioriza o poder como um exercício que não flui em uma única via, mas que se constrói em relações com o meio que os circunda, incluindo homens, espaço e tempo, resposta aos malogros das “in-sucessivas” explorações territoriais. Neste instante, Freyre já contrariara as possibilidades especulativas correntes de superioridade racial, que acompanhara contemporaneamente com a Segunda Guerra Mundial.
A este modo, mesmo que múltiplos, os dispositivos de permanência são específicos. Aos portugueses aqui chegados, Freyre prende dois modelos essenciais de agência para o seu triunfo. O primeiro referencia a mobilidade e fácil adaptação cultural, característica do modelo expansionista colonizador, marinheiros desbravadores, tecnicista, bem como a rala valorização racial, possibilitada desde sua formação por indecisão cultural e étnica entre a Europa e África. E, secundariamente, como ponto principal ao que aqui nos diz respeito, com relação ao povo brasileiro, está a miscigenação, variável dependente, no caso, dos adjetivos expostos anteriormente.
Quando referencio a miscigenação como fato secundário, mas de forma alguma menos importante, pretendo evidenciar o que Foucault exporia como causa próxima de sua possibilidade. É da disciplinarização corporal pouco preservativa racialmente que a casa-grande “trepa” com a senzala. Somente pela probabilidade sexual e a degenerescência da pura raça fora possível a vitória dos dispositivos colonizadores, sem deste modo formar uma estratégia consciente organizadora. Pelo contrário, esta era uma corporalidade nacional, visto o que afirmara anteriormente, o primeiro colonizador agira por força particular, distante de um modelo central-colonizador, sem, obviamente, distanciar-se dos intuitos da coroa.
Da necessidade de exploração territorial e expansão étnica, tanto de brasileiros quanto de portugueses, proliferaram os indivíduos da instituição, ou devo mesmo conceituar como instituiçõeS?, casa-grande e a senzala para formar a “progressista” civilização. Dos negros e senhores, dos índios e senhores, (se pudera) das cabras e senhores, de senhores e senhorinhas, senhorzinhos e senhoras, de senhores e senhoras, enfim, de um grande bacanal intra-casa-grande, intra-senzala, inter-casa-grande e senzala, do qual nos fala Freyre, para a constituição brasileira. São a resultante destes excessos sexuais os indivíduos que recebem a coroa portuguesa em território nacional, os semelhantes alienígenas prontos para recalcar nem somente os impulsos imoderados de sexualidade no Brasil, mas, também, qualquer coisa que poderíamos ter criado como “impulsos medianamente incontroláveis de sexualidade” (blefe total!). Não! nos culturalizaram de amor, a praga civilizatória cristã-ocidental, do sexo e dedicação monogâmica, na moral infringível que nos faz nós e outros e, comumente, quando a economia convém nos torna um “outro-nós” e outros. Os economicamente rentáveis ora ou outra são tornados um de Nós, assim como foram os negros, as mulheres e têm sido os gays e muitos outros, nas permutas construtivas, nem por isso deixando de serem degradantes, dos saberes entre verdades nossas e d’aqueles. “O amor é a maior energia criativa, mas até agora tem sido um azar, o maior azar. As pessoas não tem sido mortas por causa do ódio: as pessoas têm sido mortas por causa do amor. A vida ficou tão amarga, não por causa da raiva: ficou tão amarga por causa do amor.” (OSHO)
A casa-grande e a senzala estão tão próximas quanto o lar do banheiro externo. Não são eles diferentes e, sim, partes distintas do mesmo. O que parece central em Freyre é a figura do patriarca. É ao fim da extensão de seu domínio onde surgem as fronteiras. Os poderes são micro, ainda que haja uma figura chave nestas relações, o Falo determinante capaz de criar uma unidade privada, se não a própria, bastante próxima da concepção Família corrente. O mando é exercido por um poder central, capaz de oprimir da casa-grande à senzala, mas nem por isso esgota as possibilidades de figuração dos poderes. Por si só, a vasta miscigenação e promiscuidade não seria passível de mão-única aos poderes.
Ao que me parece, as criticas dirigidas a Freyre como autor de uma obra que acalanta as tensões entre senhores e escravos se baseia em modelos bem delineados que buscam simplificar um período situacional resumidamente. O que Freyre desenvolve é uma perspectiva do processo cotidiano no espaço privado do Brasil colônia, muito mais sutis que qualquer modelo de poder, a submissão e o domínio criam as relações entre brancos e negros, brancos e brancos, num caminho fluido entre todos.
É sob este mesmo ambiente freyreano, de tensões (extra)ordinárias do convívio intra-familiar, das situações de autoridade e servilismo, dos problemas e das resoluções em ambiente privado, que Nelson Rodrigues desenvolve sua dramaturgia. Leitor e admirador da obra de Freyre, Rodrigues personifica a promiscuidade colonial entre casa-grande e senzala através do núcleo familiar brasileiro das classes médias. A proximidade dos portugueses aos negros e indígenas, para Freyre, devem-se as relações sexuais e do mesmo modo, também, parecem construírem-se os laços rodrigueanos.
O ambiente é familiar, os personagens vivem sob angústia de relações sexuais, do desejo excessivo. Seus universos são perturbados pela pulsante sexual dentro de si, variando entre as exposições dos desejos mais recusados socialmente, como o incesto, até a repressão extrema da sexualidade como um grande fardo, um carma, o qual há de pesar e entristecer o resto dos dias.
“A tragicidade dos textos de Nelson Rodrigues – sendo sempre levada ao limite da aceitação, da moral, do pudor –, constituiu-se a partir de um ambiente familiar dominado por constante impulso sexual, por desejos incontrolados, mas em permanente tensão com um ideal de castidade, de frieza, de controle dos impulsos. Há aí uma apropriação de idéias e interpretações de Gilberto Freyre. Indo além, é possível afirmar que, dentro dessa primeira tensão, uma série de outras questões são apropriadas por Nelson Rodrigues: a expressão de uma determinada cultura política em que os padrões de comportamento dos personagens se pautam pelas relações pessoais em detrimento de acordos coletivos e institucionais, a constante presença da violência como forma de regulação da vida social, o lugar da família como central e também regulador da vida social, a presença de uma série de excessos, seja de violência, de pudor, de paixão, de autoridade, todos necessários à constituição das situações trágicas propostas por Nelson.” (HENRIQUE BUARQUE DE GUSMÃO)

Hei, Hitler! (Filme: Triunfo da Vontade. Teóricos: Adorno e Horkheimer)

“O estilo é uma promessa.” (ADORNO, HORKHEIMER). Uma frase coerente para começar a falar de Hitler e o Triunfo da Vontade. Performáticos, trabalhados para um estilo, construções, supostamente, capazes de reproduzir a realidade e a verdade absoluta. Ambos, propagandas para alimentar uma ideologia de massa, de dominação bem como de adestramento e utilidade. Indicam promessa de uma grande Alemanha sob o comando de Fürer, seja no ângulo ou na retórica, na arquitetura ou nos ternas atos e movimentos, no foco do sorriso envergonhado diante de uma enorme saudação receptiva ou no discurso energético, apaixonado e comprometido com uma verdade pura e revolucionaria que ecoará universalmente, a Alemanha, então, tomará as rédeas mundiais. O triunfo da vontade, da vontade de um povo que clama por condições dignas de vida após sérias crises econômicas e da vontade de um homem, de sua potentia, de um super-homem conforme a arbitraria manipulação-interpretativa dos ideais de Nietzsche, nos textos reunidos por sua irmã em Vontade de Potencia.  
                "5 de setembro de 1934, 20 anos após o início da 1ª Guerra mundial, 16 anos após o início do nosso sofrimento, 19 meses após o início do Renascimento alemão”. O que esta frase nos diz é “não interprete, nós temos o que você precisa”, isto é um discurso performático. Ele quer vender uma idéia, uma concepção, sua intenção é “subornar” o pensamento, manipulação persuasiva por intermédio das palavras e de sua justaposição, sedutivas, as palavras, tomam a atenção dos indivíduos para os quais foram planejadas, e assim planejadas.
                A Alemanha respira Hitler. “Hitler é a Alemanha, como a Alemanha é Hitler”. Hitler é o grande desejo de vitória alemão. A Alemanha é Fürer e deverá ser líder. A Alemanha é o Hitler em todos os lados, literalmente, seu símbolo está impresso em tudo quanto possível, sua doutrina chega a todos os ouvidos. Hitler formou uma grande massa, desconstruiu as classes para garantir que não fosse infortunado em seus interesses. Às massas deu-lhes cultura, cultura de massa, regou o terreno de sua liderança e o fertilizou á propagandas, manipulou os símbolos de modo a orientar unidirecionalmente o desejo dos alemães, o desejo de construção de uma nação pura e poderosa e para cada indivíduo o de servir a estes ideais. “Sob o monopólio privado da cultura ‘a tirania deixa o corpo livre e vai direto à alma’” (ADORNO, HORKHEIMER, TOCQUEVILLE), à paixão dos indivíduos, com isso o sucesso de Fürer foi enorme, ele apaixonou o povo alemão por ele mesmo, os fez olharem-se para si e adorarem-se diante da construção de um espelho que refletia superioridade, pureza, igualdade e potencia, a Alemanha morreu como Narciso, vendo sua grande paixão desfalecer.
Uma frase do Dialética do Esclarecimento talvez pudesse ser usada por Hitler após seu triunfo: “Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos” (ADORNO, HORKHEIMER) nossos. Levando em consideração que a Alemanha há pouco tempo havia retomado o controle de sua economia sob o comando de Hindenburg, sendo então que boa parte da população fazia parte da classe dominada e que a classe dominante o apoiava, evidente no caso de não ter sido deportado mesmo após ataques estratégicos nazistas antes de sua ascensão, violando as leis alemãs. Sua performance foi espetacularmente eficiente, utilizou-se de todos os elementos que lhe pareceram possíveis e lhes foram planejados para controle dos “arianos” , utilizou de forma ferrenha “a idéia  de ‘esgotar’ as possibilidades técnicas dadas, a idéia da plena utilização das capacidades em vista do consumo estético massificado” (ADORNO, HORKHEIMER) para manipulação.
A propaganda de Hitler é o que Habermas categoriza como publicidade manipulativa. A esfera pública torna-se ativa para a convergência de opiniões, ao invés de fomentar a formação de opiniões e concepções críticas, tira o espaço de debate proporcionado pela publicidade crítica e intervém com uma publicidade demonstrativa, afirmativa de que “o povo alemão está feliz por saber que a constante mudança de liderança foi substituída por um posto fixo”, de que nas mãos de Fürer a grandiosa Alemanha de indivíduos satisfeitos é também uma Alemanha de indivíduos ativos, que agem em conformidade com o que a natureza lhes proporcionou, com a força, o poderio, de uma raça pura superior ao mundo, que deve lutar para assumir o posto que lhes é digno. A grandiosidade de Hitler só foi possível diante dos meios de comunicação de massa, que usou com grande maestria para efetivação de seu imenso holocausto, que "em comparação com a imprensa da era liberal, os meios de comunicação de massa alcançaram, por um lado, uma extensão e uma eficácia incomparavelmente superiores e, com isso, a própria esfera pública se expandiu" (HABERMAS). A esfera publica expandida oferece espaço para a publicidade demonstrativa, a qual por sua vez estava submissa a Hitler, como ele mesmo afirmou, ele não censura a imprensa, mas exige que ela fale somente a verdade, a sua verdade, a realidade fantasmagórica de quanto o povo está feliz por o terem como o seu Fürer.
No acampamento da Juventude Hitlerista demonstrações de camaradagem entre jovens homens inocentes, alegria e conforto com sua situação de subserviência à pátria, despojo diante de tal situação, no entanto, a distribuição e organização das barracas no acampamento demonstravam o que ele estava fazendo com a Alemanha, e estava tentando com receptor das imagens que passavam, desde a população até as informações que por ela passavam. Estava-as tornando úteis, dóceis e identificáveis como todos os indivíduos presentes naquele acampamento, fazendo o que Foucault conceituou como biopolítica, atingindo os corpos de forma disciplinar “formando <<quadros vivos>> que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas” (Foucault).

Educação à distância - Uso indevido de Drogas. "Combater a miséria ou o crack?"


2 -Atividades desenvolvidas
O Intervalo Interativo é espaço criado para todo tipo de debate que possa interessar os conselheiros e tenha um mínimo de relação com as drogas. Foi uma página bastante acessada com inúmeros fóruns de assuntos variados. Aos tutores era proibida a participação, como meio de assegurar uma imagem “neutra” a SEAD e SENAD nestas discussões que fugiam aos modelos para distribuição massiva e mesmo porque haviam tutores com respostas tão prontas que a discussão das apostilas interpretava como lhe convinha. 
Ao vasculhar entre os links do intervalo interativo encontrei inúmeros fóruns, entre os quais me interessei por alguns criados por S.A., Seropédica-RJ. Suas postagens envolvem uma perspectiva oposta a repressão contra drogas ilícitas e o tráfico, com propostas de desenvolvimento de um sistema penal que leve em conta o indivíduo-histórico, ao contrário do que apresenta como criminalização seletiva, o encarceramento dos pobres pelo narcotráfico, sistema o qual fora criado por interesses das classes dominantes para contenção dos fatores que lhe soam(vam) ameaçadores. Suas propostas de desmistificação das drogas criaram debates nos quais fora recorrentemente contrariado e rechaçado.
3 – Discussão
                No Brasil, as drogas mais consumidas tem sido a maconha, cocaína e o crack. A regularidade com que tem sido consumido o crack, o aumento de sua circulação, a preços baixos, prendeu a atenção da mídia e da saúde pública. Um montante de terror e negligência correu degustando o senso-comum, devolvendo uma vasta imagética de seres “demonizados” pelo uso do crack, afastando o conhecimento, envolvimento e desenvolvimento de ações responsáveis com um processo saudável aos indivíduos. O conhecimento disseminou-se em imagens aterrorizantes que afastam o reconhecimento dos problemas essenciais. O saber-comum fora empapuçado de preconceitos e inviabilizado de agir a caminho de uma mudança de paradigmas, capaz de deslocar o foco dos quadros de problema social das drogas numa imagem lúcida de desmoralização criando baseado em uma problemática de saúde e concentração de renda, menos devastador que a violência do tráfico ou/e seu extermínio. 
4 - Avaliação das atividades
                Como S. A. comentou em várias de suas postagens, boa parte dos conselheiros parecem não ter lido a apostila ou compreendido pouco o que envolve, e pode desenvolver futuramente, a Redução de Danos.
                A prática de redução de danos preconiza a investigação e o especifico, possibilitando deste ponto o surgimento de políticas outras que intencionem a diminuição das ações maléficas da droga e da drogadição na sociedade.
                O individuo capacitado para atuar com redução de danos há de estar despido de preconceitos e atento. Seu ponto de partida e de contato com o usuário é dialogando sobre o uso, a partir daí faz-se análise de um possível meio de mudança, mapeando motivos que possam vir primeiro ao uso das drogas por si.
                O crack por ser uma droga barata e, ainda que rápida e superficialmente, prazerosa tem se disseminado com maior intensidade nos grupos de baixa renda ou quase nenhuma, como moradores de rua. 
                O fórum selecionado projetou um debate sobre a legalização das drogas como possibilidade de mudança social, por meio do reconhecimento das classes baixas, transformação dos índices de violência pelo tráfico, responsáveis por mais vitimas que o uso da droga, percepção dos motivos reais que levam ao uso das substâncias, como no caso das crianças em situação de rua. O grande mal é afastar da demanda governamental políticas que conheçam e desenvolvam ações voltadas para a realidade dos sujeitos que pousam nas ruas e passam parte, ou quase toda, sua vida ali. A causa de sua situação raramente tem sido o uso de drogas, são apenas conseqüências. O que será mais urgente, combater a miséria ou crack? 

Afrô da Dança

A princípio, antes de nossa primeira ida à campo, com o olhar fissurado do sujeito antropólogo que procura aquele fio solto no sujeito observado para tecer e criar a camisa que vestirá, partíamos de um questionarmos qual era, no contexto acadêmico da UFSC, a resignificação da dança afro, através de qual capital simbólico e com quais capitais simbólicos a dança afro se constituí enquanto identidade hibrida, que contém em si o local e global, característica contemporânea decorrente da evolução tecnológica, em termos materiais, com o perdão do dicotômico, mais de causa que de efeito, que proporciona essa comunicação entre as diferentes linguagens (artística, econômica, política e outros) especificas, locais com outras ainda especificas e locais, criando através da dinâmica uma cultura global ou esse processo que chamamos globalização.
“A globalização não é um processo de mão única firmemente sob controle do Ocidente. Culturas não ocidentais também geram impacto sobre os processos de globalização do imperialismo ocidental. A cultura ocidental está sendo “hibridizada”, um processo que poderia eventualmente levar ao deslocamento da cultura ocidental de seu presente status como força global. Esse acelerado processo de troca global, gerou um processo pelo qual o consumo de culturas não-ocidentais foi absorvida pelo Ocidente. Bem na linha de frente deste ajustamento de informação, está o avanço tecnológico em comunicação e troca de informação.” (KELLNER)
Um projeto extremamente pretensioso para um trabalho de PPCC abarcar “qual capital simbólico e com quais capitais simbólicos a dança afro se constituí enquanto identidade hibrida”. Depois de uma boa limpeza nas lentes para a recuperação do foco, transferimos nossa interrogação para “O que é ‘afro’? Qual a especificidade contida no contexto da dança a nomeia afro?”. Não por isso, obviamente, deixamos de nos guiar pelo o que a dança contém de hibrido, se é que seria possível diante do que procuramos, no entanto, o que deixamos de fazer era procurar em uma imagem identificar o que havia se fusionado, para então buscar construí-la naquele lugar onde a dança se constitui como ‘afro’, no corpo, musico e dançante, e no discurso.
A pesquisa desenvolvida para a significação e constituição da identidade afro em Florianópolis é valorizada no discurso por um desenvolvimento linear ao longo dos últimos quatorze anos, processo com intervenções e trocas, de e entre variados indivíduos, muitos deles ausentes no contexto atual. No presente, o que reclama africanidade na oficina são os instrumentos identificados com a cultura malinkê, djembes e dunums, assim como os ritmos executados por eles e o corpo que baila construído em base técnica na busca de um corpo-capital simbólico com referência a um “afro”. Construído e por isso imaginado, imaginado e por isso real. O que é presenciado estética e ritmicamente constituí deveras um signo “afro”, se não de algo que poderíamos chamar de tradicional, pelo menos no que diz respeito à representação de algo que pertence ao outro e que é apropriado e resignificado em comunicação dinâmica, que em um contexto especifico gera identificação coletiva como ação mimética que remete à um outro e também ao mesmo, levando em conta essa identidade brasileira em construção, de um povo miscigenado entre imigrações e migrações no período colonial e que atingem novos significados no contexto de globalização. “Nosso tempo é paradoxal, onde as narrativas mestras foram implodidas, abrindo novas possibilidades para ao discurso e produção cultural em um mundo de transição global.” (Kellner)
O desenvolvimento da aula de dança está pautado nos ritmos que serão tocados durante ela. Apesar de a pesquisa do corpo “africano” não estar focada na cultura malinkê, ao contrário dos ritmos, o que o guia em seus movimentos são as construções do ritmo, a constância das batidas, as mudanças e outros. O corpo é construído através da resignificação da técnica tanto corporal quanto musicista. No principio, a oficina era exercida com outros ritmos, intercalando entre aulas com som mecânico e ao vivo. Foi quando, então, introduziram no contexto da dança a presença de músicos com instrumentos e ritmos malinkês.
“Neste caso, os desdobramentos e variações rítmicas são explorados pelos músicos e dançarinos. Juntos desenvolvem possibilidades inventivas numa estrutura não linear, quase sempre sujeita a alterações, exploradas nos encontros entre percussão e dança. Refere-se assim à hibridez de encontros culturais, assimilações e dinâmicas de estruturas (outras). Construindo dentro de uma dinâmica onde o trânsito é característico. As estéticas turbulentas enquanto produto artístico (os trânsitos) apresentam-se agora em caráter interativo e interventivo. Isto, porém, só é possível no coletivo que possibilita essas variações construídas por aproximação. Apoiando-se, em sua maioria no intermédio de uma estrutura interventiva móvel (estrutura de caos). Ou seja, o produto final de apresentação artística são as mediações e combinações variantes entre as pessoas que se propõe a dançar. Nele, o trânsito é o sentido e as contaminações fundamentais. Assim, apresenta-se como caráter de intervenção aos espaços de interação entre as pessoas, ao ambiente, à percussão: no ‘entre’.” (SCIREA, 2008: 36)

A energia que é projetada durante as aulas, como é caracterizada pelos sujeitos participantes, faz dela um evento, em paralelo às “communitas” do teórico Victor Turner. O que é executado durante as aulas muda o “estar” enquanto individuo neste período, mudam-se as estruturas, tanto rítmicas, na agencia de ser um vivente, quanto estruturais, por intermédio de um corpo que comunica através de movimentos, de postura, de encaixe, do ponto em que há equilíbrio. O que é transformado não é somente a imagem externa sobre o corpo, mas o próprio corpo e suas possibilidades de agencia e movimento. Nesta, ao mesmo tempo performática e inventiva, coreografia, estão em comunicação horizontal tanto dançarinos quanto músicos, um agindo sobre outro em um processo transitório de comunicação dinâmica, em que anteriores estilos são reproduzidos e mimetizados para dar lugar ao novo, através de avaliação e resignificação do passado.
É no interstício entre a pesquisa prática cotidiana de possibilidades de um corpo “africano” e a técnico-teórica que é construído o discurso sobre o que faz da dança afro. Esse modelo de corpo que é abstraído e transformado, transforma por sua vez o modelo de corpo afro. E o mesmo acontece com o processo de ritmização. O derivado é aderido não, tão somente, como parte do mesmo, mas, no processo, como sendo o mesmo. O afro nesse contexto não carrega consigo a negritude. O que o constitui são os saberes à que é identificado, que por sua vez são identificados a uma cultura de uma nação especifica, porém extremamente heterogênea. Durante o percurso de construção do “afro” em contexto nacional, esta prática especifica de um contexto, a dança afro em Florianópolis, constrói-se do ir e vir comunicativo entre o mesmo e o outro, num processo de apropriação e construção de ambos, sentindo sua prática como realização existencial em disseminar uma cultura que foi ignorada e proibida durante longo período. Nos questionemos até onde essa disseminação funciona como o grito dos oprimidos e quando vira manutenção do estereótipo do outro? E até que ponto a apropriação não vira expropriação, ao usar dos saberes dos outros e construir uma imagética, inúmeras vezes deturpada, de um outro estático e a usando como instrumento de ingresso no mercado e na economia?