quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Hei, Hitler! (Filme: Triunfo da Vontade. Teóricos: Adorno e Horkheimer)

“O estilo é uma promessa.” (ADORNO, HORKHEIMER). Uma frase coerente para começar a falar de Hitler e o Triunfo da Vontade. Performáticos, trabalhados para um estilo, construções, supostamente, capazes de reproduzir a realidade e a verdade absoluta. Ambos, propagandas para alimentar uma ideologia de massa, de dominação bem como de adestramento e utilidade. Indicam promessa de uma grande Alemanha sob o comando de Fürer, seja no ângulo ou na retórica, na arquitetura ou nos ternas atos e movimentos, no foco do sorriso envergonhado diante de uma enorme saudação receptiva ou no discurso energético, apaixonado e comprometido com uma verdade pura e revolucionaria que ecoará universalmente, a Alemanha, então, tomará as rédeas mundiais. O triunfo da vontade, da vontade de um povo que clama por condições dignas de vida após sérias crises econômicas e da vontade de um homem, de sua potentia, de um super-homem conforme a arbitraria manipulação-interpretativa dos ideais de Nietzsche, nos textos reunidos por sua irmã em Vontade de Potencia.  
                "5 de setembro de 1934, 20 anos após o início da 1ª Guerra mundial, 16 anos após o início do nosso sofrimento, 19 meses após o início do Renascimento alemão”. O que esta frase nos diz é “não interprete, nós temos o que você precisa”, isto é um discurso performático. Ele quer vender uma idéia, uma concepção, sua intenção é “subornar” o pensamento, manipulação persuasiva por intermédio das palavras e de sua justaposição, sedutivas, as palavras, tomam a atenção dos indivíduos para os quais foram planejadas, e assim planejadas.
                A Alemanha respira Hitler. “Hitler é a Alemanha, como a Alemanha é Hitler”. Hitler é o grande desejo de vitória alemão. A Alemanha é Fürer e deverá ser líder. A Alemanha é o Hitler em todos os lados, literalmente, seu símbolo está impresso em tudo quanto possível, sua doutrina chega a todos os ouvidos. Hitler formou uma grande massa, desconstruiu as classes para garantir que não fosse infortunado em seus interesses. Às massas deu-lhes cultura, cultura de massa, regou o terreno de sua liderança e o fertilizou á propagandas, manipulou os símbolos de modo a orientar unidirecionalmente o desejo dos alemães, o desejo de construção de uma nação pura e poderosa e para cada indivíduo o de servir a estes ideais. “Sob o monopólio privado da cultura ‘a tirania deixa o corpo livre e vai direto à alma’” (ADORNO, HORKHEIMER, TOCQUEVILLE), à paixão dos indivíduos, com isso o sucesso de Fürer foi enorme, ele apaixonou o povo alemão por ele mesmo, os fez olharem-se para si e adorarem-se diante da construção de um espelho que refletia superioridade, pureza, igualdade e potencia, a Alemanha morreu como Narciso, vendo sua grande paixão desfalecer.
Uma frase do Dialética do Esclarecimento talvez pudesse ser usada por Hitler após seu triunfo: “Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos” (ADORNO, HORKHEIMER) nossos. Levando em consideração que a Alemanha há pouco tempo havia retomado o controle de sua economia sob o comando de Hindenburg, sendo então que boa parte da população fazia parte da classe dominada e que a classe dominante o apoiava, evidente no caso de não ter sido deportado mesmo após ataques estratégicos nazistas antes de sua ascensão, violando as leis alemãs. Sua performance foi espetacularmente eficiente, utilizou-se de todos os elementos que lhe pareceram possíveis e lhes foram planejados para controle dos “arianos” , utilizou de forma ferrenha “a idéia  de ‘esgotar’ as possibilidades técnicas dadas, a idéia da plena utilização das capacidades em vista do consumo estético massificado” (ADORNO, HORKHEIMER) para manipulação.
A propaganda de Hitler é o que Habermas categoriza como publicidade manipulativa. A esfera pública torna-se ativa para a convergência de opiniões, ao invés de fomentar a formação de opiniões e concepções críticas, tira o espaço de debate proporcionado pela publicidade crítica e intervém com uma publicidade demonstrativa, afirmativa de que “o povo alemão está feliz por saber que a constante mudança de liderança foi substituída por um posto fixo”, de que nas mãos de Fürer a grandiosa Alemanha de indivíduos satisfeitos é também uma Alemanha de indivíduos ativos, que agem em conformidade com o que a natureza lhes proporcionou, com a força, o poderio, de uma raça pura superior ao mundo, que deve lutar para assumir o posto que lhes é digno. A grandiosidade de Hitler só foi possível diante dos meios de comunicação de massa, que usou com grande maestria para efetivação de seu imenso holocausto, que "em comparação com a imprensa da era liberal, os meios de comunicação de massa alcançaram, por um lado, uma extensão e uma eficácia incomparavelmente superiores e, com isso, a própria esfera pública se expandiu" (HABERMAS). A esfera publica expandida oferece espaço para a publicidade demonstrativa, a qual por sua vez estava submissa a Hitler, como ele mesmo afirmou, ele não censura a imprensa, mas exige que ela fale somente a verdade, a sua verdade, a realidade fantasmagórica de quanto o povo está feliz por o terem como o seu Fürer.
No acampamento da Juventude Hitlerista demonstrações de camaradagem entre jovens homens inocentes, alegria e conforto com sua situação de subserviência à pátria, despojo diante de tal situação, no entanto, a distribuição e organização das barracas no acampamento demonstravam o que ele estava fazendo com a Alemanha, e estava tentando com receptor das imagens que passavam, desde a população até as informações que por ela passavam. Estava-as tornando úteis, dóceis e identificáveis como todos os indivíduos presentes naquele acampamento, fazendo o que Foucault conceituou como biopolítica, atingindo os corpos de forma disciplinar “formando <<quadros vivos>> que transformam as multidões confusas, inúteis ou perigosas em multiplicidades organizadas” (Foucault).

Nenhum comentário:

Postar um comentário